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Técnica & Instrumentos

POR MARCELO TAVARES
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O valor de uma sanfona

Publicado em 27-01-2008

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Xote Santo: músicos de Brasília usam ritmo do forró para louvar a Deus

O som do acordeão é marcante em nossa cultura e evoca herança européia

Acordeão no Rio Grande do Sul. Sanfona no Nordeste. Há ainda quem o chame "harmônica" ou "gaita", Os nomes são variados, mas todos reconhecem que esse instrumento faz parte da história musical de vários recantos do País. Embora tenha sofrido por causa do número reduzido de escolas e professores especializados e pela falta de alunos dispostos a aprendê-lo - afinal, é um instrumento que tem lá suas dificuldades -, o acordeão ainda é encontrado em várias igrejas evangélicas. Principalmente naquelas de linha mais pentecostal e que ainda preservam um bom sertanejo de raiz.

Esse tom nostálgico proporcionado pelo instrumento tem explicação. Os primeiros registros da presença do acordeão no Brasil são do tempo da Guerra do Paraguai, por volta de 1864. Mas só no século 19 ele se tornou popular. com a chegada dos primeiros imigrantes italianos, que usavam o instrumento para animar as danças típicas de seu país. A Itália. aliás, se tornou referência na produção do instrumento. principalmente nas regiões de Stradella e Ancona, onde surgiram importantes fabricantes, como Paolo Soprani c Scandelli.

Aqui no Brasil, não demorou para que o instrumento se difundisse, principalmente nas regiões onde existia uma grande concentração de imigrantes europeus, como São Paulo, Santa Catarina e Rio Grande do Sul. Mais recentemente, na década de 1950, era comum encontrar dois exemplares na mesma casa. No entanto, a disseminação do rock, na década de 1960, foi quase fatal para o instrumento. A maioria das fábricas de sanfonas - que chegaram a 32 só nas regiões Sul e Sudeste do Brasil - acabou fechando as portas. A importação, principalmente de marcas italianas, se tornou a única alternativa dos instrumentistas, que sofreram por anos com a falta de mão-de-obra qualificada para regular e consertar o instrumento por aqui.

O reflorescimento de um estilo musical tipicamente nordestino, principalmente no circuito universitário, tem ajudado a resgatar a tradição da sanfona no Brasil. Nos últimos anos, o forró conquistou uma base de fãs entre a classe média do Sudeste. Esse fortalecimento do ritmo nordestino acabou empolgando até mesmo músicos evangélicos: um pouco mais livres do preconceito, lançaram diversas bandas de forró gospel. Exemplo disso é a banda Xote Santo, formada por músicos que tocavam na noite de Brasília (DF) e hoje vivem para levar o Evangelho por meio da música.

O grupo chamou a atenção de vários visitantes das duas últimas edições da Expo Cristã, em setembro. O sanfoneiro do grupo, Elker, teve o primeiro contato com o instrumento há apenas quatro anos, mas a raiz nordestina e a paixão pelo som da sanfona impulsionaram o aprendizado. "Compramos uma sanfona, meio que de urgência, comecei a solar e já fui fazendo shows", conta.

Elker, porém, alerta que o aprendizado não é nada fácil. "Trata-se de dois instrumentos em um: baixo e teclado", lembra o músico, que já tocava teclado. Outra dificuldade apontada por Elker - que escolheu a marca italiana Scandally como sua favorita - é o preço de uma sanfona, que custa, em média, R$ 10 mil.

Sem fronteiras

Justamente para oferecer produtos com a qualidade e a tecnologia das italianas, mas com preço mais acessível para o brasileiro, que a fabricante Leticce foi criada em 2003 na cidade de Campina Grande (PB). A empresa é dirigida pelo também sanfoneiro José Amazan Silva, que já lançou 23 discos em dezoito anos de carreira. "Não existem fronteiras para a sanfona. Por ser um instrumento completo, fica a critério do músico", afirma.

A história continua. O acordeão já foi usado por Tchaikovsky e Rolling Stones. Segundo Amazan, não é grande o número de músicos evangélicos que procuram sua empresa - "A melhor das Américas", garante. "Temos alguns clientes evangélicos que, em geral, buscam serviço de reparos em instrumentos antigos, outra especialidade da nossa fabrica." A falta de mais clientes, evangélicos ou não, estaria na falta de escolas de música que ofereçam aulas de sanfona. "Até existem muitos jovens interessados no instrumento, mas o acesso ainda é pequeno." Quem sofre é a diversidade musical brasileira, criada por Deus e bonita por natureza.

Um pouco de história

A sanfona brasileira é parente da concertina inglesa. Denominada acordeão, foi patenteada em Viena, em 1829, mas só adquiriu teclado vinte anos depois. Chegou ao Brasil, onde a fole de oito baixos do Nordeste já fazia história, com as imigrações italianas e alemãs.

No lado direito do acordeão encontra-se o teclado, que possui três oitavas, e o campo de registros que dependerá da potencialidade do instrumento, inferindo em sua extensão. O fole é responsável pela dinâmica e pela interpretação da música. É através da abertura e do fechamento do fole que se trabalha a duração da nota, os efeitos de vibrato e a dinâmica. No lado esquerdo encontram-se os bordões, os baixos, que variam desde doze baixos, para crianças, até os profissionais de 120 baixos.

Fonte: Revista Igreja nº 13 (dezembro/07 e janeiro/08)
Marcelo Tavares é músico, arranjador e produtor

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